segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Onde tudo é agora

 Há olhares cansados que contam os dias como moedas gastas, 
E acreditam que o tempo é um senhor de verdades absolutas, 
Mas apenas repetem o eco de uma mentira bem vestida. 
Veem rugas onde há histórias, 
Veem fim onde há transformação, 
Veem atraso onde há silêncio fecundo, 
E assim se perdem na superfície dos instantes. 
 
O tempo passa, dizem, como se fosse um rio inevitável, 
Mas esquecem que também somos água que sente o curso, 
E não apenas margem que observa a fuga das horas. 
Há quem viva aprisionado em calendários, 
Como se a vida fosse uma soma de datas alinhadas, 
E não um incêndio secreto ardendo fora da contagem, 
Um sopro eterno escondido no breve. 
 
Quem sabe seja preciso trair o tempo com delicadeza, 
Fechar os olhos ao seu império de números e ciclos, 
E reaprender a ver com a alma despida de pressa. 
Pois o instante verdadeiro não se mede, 
Ele se revela como um abismo luminoso, 
Onde tudo é agora e nada se perde, 
E o olhar, enfim, deixa de mentir para si mesmo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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