segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Essa morada indomável

 Todos os dias você amanhece em mim 
Como uma lembrança que não pediu licença. 
Não bate à porta, simplesmente existe, 
Feito luz infiltrada pelas frestas 
De um quarto que desaprendeu o escuro. 
 
E todas as noites você retorna, 
Não como quem chega, mas como quem nunca saiu. 
Habita o silêncio entre um pensamento e outro, 
Escorre manso pelas horas insones, 
Feito sombra que conhece o caminho de cor. 
 
Há algo de eterno em sua ausência, 
Algo de íntimo em sua distância. 
Porque o corpo pode desconhecer o toque, 
Mas a mente, essa morada indomável, 
Insiste em refazer você dentro de mim. 
 
Você vive onde ninguém vê, 
Onde o mundo não alcança, 
Onde até o tempo hesita: 
Nesse território invisível e vasto 
Que chamam, com descuido, de pensamento. 
 
Entre dias que passam 
E noites que se acumulam, 
Você permanece, inexplicavelmente viva, 
Como uma presença sem forma, 
Como um destino que escolheu não partir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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