Homens brindam ao progresso com taças vazias,
Enquanto crianças aprendem a mastigar silêncio.
A cidade vende felicidade em prestações infinitas,
E os corpos cansados carregam relógios como correntes.
Chamam isso de liberdade entre anúncios luminosos,
Mas há ferrugem escondida no coração das avenidas.
É nobre, dizem, suportar o peso do mundo calado,
Seguir produzindo mesmo quando a alma apodrece.
O pobre bebe o veneno em goles mais profundos:
Ônibus lotados, salários curtos, sonhos mutilados.
Os donos do banquete discursam sobre mérito
De dentro de prédios onde o sol nunca falha,
Enquanto a fome aprende novos nomes burocráticos.
Dessa forma caminhamos entre ruínas perfumadas,
Consumindo distrações para esquecer o abismo.
A miséria veste algoritmos e fala sobre eficiência,
A guerra virou espetáculo servido após o jantar,
E até o amor parece um produto fora de estoque.
Talvez o mundo nunca tenha querido ser salvo,
Apenas administrado por mãos limpas de sangue visível.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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