quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A razão não é cruel

 Tem pessoas que transformam a ignorância em trono, 
E sentam-se nele como reis de uma noite sem aurora. 
Não buscam a verdade, buscam o conforto 
De nunca precisar olhar para dentro do próprio abismo. 
 
Os profetas dos sonhos fáceis 
Caminham entre multidões cansadas. 
Vendem desejos 
Como quem distribui água salgada aos sedentos. 
Quanto mais se bebe, mais a sede cresce, 
E ainda assim os fiéis agradecem pelo milagre da ilusão. 
 
Existe um mar imenso onde a razão naufraga. 
Nele, as bússolas são quebradas de propósito, 
Pois pensar exige coragem, 
E a coragem raramente é popular. 
 
A ignorância, quando vestida de certeza, 
Fala alto, gesticula muito, 
E condena qualquer silêncio que ouse refletir. 
Ela teme o pensamento como vampiros temem a manhã. 
 
Os falsos sonhadores 
Conhecem bem o coração humano: 
Sabem que muitos preferem promessas impossíveis 
A encarar a áspera arquitetura do real. 
Por isso erguem templos sobre areia 
E chamam desespero de esperança. 
 
Existe uma beleza triste 
Em ver multidões navegando sem rumo, 
Cantando hinos contra as estrelas, 
Como se o universo lhes devesse sentido 
Apenas porque desejam muito. 
Mas a razão não é cruel, 
Cruel é abandonar-se completamente ao delírio 
E chamar isso de liberdade. 
 
A verdadeira lucidez 
Não está em destruir os sonhos, 
Mas em impedir que eles devorem o mundo 
Como incêndios alimentados pela própria cegueira. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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