Olhares que aprenderam com o tempo a enganar,
Tomaram por verdade o fluxo dos ponteiros,
E viram nos começos apenas derradeiros,
Sem nunca ao invisível ousarem se lançar.
Contaram cada dia como quem quer somar,
Mas perderam o sentido entre números ligeiros;
Foram fiéis serventes de instantes passageiros,
Sem perceber o eterno dentro deles a pulsar.
O tempo, astuto, veste máscaras de razão,
E ensina ao olhar cego sua falsa medida,
Faz do efêmero um trono, da pressa, uma prisão.
Mas há no instante nu uma chama escondida,
Que escapa à mentira, à contagem, à ilusão,
E só vê essa luz quem aprende enxergar a vida.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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