quarta-feira, 15 de julho de 2026

Um adeus

Eu não lhe disse nada naquele dia suspenso, 
Quando o seu olhar se desprendeu do meu como outono, 
E as palavras, tímidas, recolheram-se ao fundo do peito. 
Havia um mundo inteiro pulsando entre os silêncios, 
Mas eu escolhi o abismo confortável do não dizer, 
Como quem teme que a verdade, ao nascer, desmorone tudo, 
E transforme o instante em algo impossível de suportar. 

Desde então, carrego frases que nunca respiraram, 
Cartas invisíveis escritas na pele da memória, 
E um amor que aprende a existir sem testemunhas. 
Seu olhar partiu, mas deixou em mim um eco interminável, 
Um vazio que se alonga nas horas mais quietas do dia, 
Como se o tempo tivesse parado naquele instante exato 
Em que perdi você sem sequer tentar te alcançar. 

Agora, o silêncio é a língua que mais me traduz, 
E nele repousa tudo o que não ousei revelar. 
Há sentimentos que não morrem, apenas se escondem, 
Vivendo de sombras, de lembranças e de quase. 
Se eu tivesse dito, talvez fosse ruína ou redenção, 
Mas o não dito tornou-se eterno dentro de mim, 
Como um adeus que nunca teve coragem de existir. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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