domingo, 17 de maio de 2026

A saudade e o tempo

A saudade é porta esquecida 
Na casa antiga da memória, 
Por onde a vida recolhida 
Revê, em silenciosa história, 
As cinzas mornas da alegria. 

A mocidade foi embora 
Com seus passos de ventania, 
Deixando aberta, noite afora, 
A fresta tênue onde vigia 
O velho rosto dos antigos dias. 

A velhice encosta os olhos 
Na vidraça do passado, 
E encontra, entre os ferrolhos, 
O tempo já despedaçado 
Nos corredores do cuidado. 

Há retratos sobre a mesa, 
Há nomes mortos no jardim, 
Há uma doce natureza 
De sofrer sem saber o fim 
Do que ainda vive em mim. 

E a saudade, paciente chama, 
Permanece acesa no peito, 
Como quem guarda e ainda ama 
Tudo aquilo que foi desfeito 
Pelas mãos cansadas do tempo. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário