Como quem retorna de um lugar desconhecido
E encontra ainda intacta a respiração do mundo
Há árvores insistindo em permanecer verdes
Há vozes distantes atravessando as ruas
E dentro de mim uma pequena chama
Que se recusa a abandonar a escuridão.
Sou grato pelos instantes mínimos
Pela água silenciosa sobre as mãos
Pela memória de um abraço antigo
Pela palavra que surge inesperadamente
E devolve sentido ao vazio.
Às vezes a vida parece um corredor interminável
Cheio de portas que não se abrem
E mesmo assim alguma beleza permanece
Um pássaro atravessando o céu do entardecer
Um livro esquecido sobre a mesa
Ou o pensamento que nasce sem aviso
Como se a alma ainda acreditasse no amanhã.
A inspiração chega sem anunciar seu nome
Sentando-se ao lado do silêncio
Como alguém que conhece minhas ruínas
E ainda assim permanece
Olhando comigo para o horizonte.
Carrego gratidão por continuar sensível
Num tempo que endurece tantas pessoas
Por ainda me emocionar diante do mundo
E transformar inquietações em palavras
Como quem acende pequenas lanternas contra a noite.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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