quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A pequena chama dentro de mim

Acordo com o peso leve da manhã 
Como quem retorna de um lugar desconhecido 
E encontra ainda intacta a respiração do mundo 
Há árvores insistindo em permanecer verdes 
Há vozes distantes atravessando as ruas 
E dentro de mim uma pequena chama 
Que se recusa a abandonar a escuridão. 
 
Sou grato pelos instantes mínimos 
Pela água silenciosa sobre as mãos 
Pela memória de um abraço antigo 
Pela palavra que surge inesperadamente 
E devolve sentido ao vazio. 
 
Às vezes a vida parece um corredor interminável 
Cheio de portas que não se abrem 
E mesmo assim alguma beleza permanece 
Um pássaro atravessando o céu do entardecer 
Um livro esquecido sobre a mesa 
Ou o pensamento que nasce sem aviso 
Como se a alma ainda acreditasse no amanhã. 
 
A inspiração chega sem anunciar seu nome 
Sentando-se ao lado do silêncio 
Como alguém que conhece minhas ruínas 
E ainda assim permanece 
Olhando comigo para o horizonte. 
 
Carrego gratidão por continuar sensível 
Num tempo que endurece tantas pessoas 
Por ainda me emocionar diante do mundo 
E transformar inquietações em palavras 
Como quem acende pequenas lanternas contra a noite. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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