Quando os relógios mastigam lentamente os minutos,
E os corredores da mente ecoam passos sem origem,
Caminhamos entre fragmentos de vozes e anúncios,
Como sombras procurando uma porta em meio à névoa.
Não é o trovão que nos derrota,
Nem o mar que apaga os nomes das pedras.
É o zumbido constante das coisas pequenas,
A procissão interminável de distrações,
O pó acumulado sobre os livros não lidos.
Vi homens recolhendo espelhos partidos,
Tentando construir um rosto com reflexos dispersos.
Vi mulheres carregando cestos de horas desperdiçadas,
Como quem transporta água em vasos rachados.
E ninguém sabia dizer onde terminava o caminho.
Nas salas iluminadas por luz artificial,
A sabedoria sentava-se silenciosa entre as cadeiras vazias.
Ninguém a reconhecia.
Todos aguardavam alguma revelação extraordinária,
Enquanto ela habitava o intervalo entre duas palavras.
Porque o deserto não está apenas além das cidades.
Há desertos ocultos sob o excesso de ruído.
Há secas que atingem a atenção antes da alma.
E o espírito fragmentado, incapaz de permanecer,
Torna-se estrangeiro dentro da própria existência.
Pode ser que a redenção esteja no ato de permanecer.
Ou que a verdade não habite o movimento incessante,
Mas a pausa que interrompe o mecanismo da dispersão.
Não o brilho passageiro da centelha,
Mas a chama discreta que atravessa a noite.
Quando o último eco se dissipar nos corredores do tempo,
Quando os anúncios forem apenas poeira sobre a poeira,
E os nomes retornarem ao silêncio que os gerou,
Restará apenas a pergunta que sempre esteve conosco:
O que vimos, enquanto olhávamos para todos os lados?
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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