quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Apologia ao conhecimento V

 O conhecimento chegou 
Como chega uma notícia irreversível. 
Não pediu licença. 
Apenas ficou. 
E tudo o que eu era 
Precisou aprender a conviver com isso. 
 
Saber foi perder pessoas 
Sem que elas partissem. 
Foi olhar os mesmos rostos 
E perceber 
Que já não falávamos da mesma vida. 
 
A cada verdade compreendida, 
Algo em mim precisou morrer. 
Não houve luto público, 
Apenas o silêncio constrangido 
De quem segue funcionando. 
 
Descobri que pensar até o fim 
É um gesto que cobra preço. 
E quase sempre 
Não há quem ajude a pagar. 
 
O mundo não se tornou cruel, 
Ele apenas se revelou. 
E o horror não estava fora, 
Mas na lucidez 
De vê-lo sem filtros. 
 
Há saberes que isolam 
Mais do que o erro. 
Porque errar ainda permite companhia, 
Mas compreender 
Exige solidão. 
 
O conhecimento não me deu escolha. 
Depois dele, 
Viver se tornou um ato consciente, 
E isso é uma forma de tragédia diária. 
 
Às vezes invejo 
Quem consegue acreditar sem fissuras. 
Não por fraqueza, 
Mas porque a fé intacta 
É um descanso que perdi. 
 
O pensamento profundo 
Não grita nem consola. 
Ele permanece, 
Como uma dor antiga 
Que já não sangra, 
Mas nunca passa. 
 
O conhecimento não foi salvação. 
Foi consciência. 
E a consciência, 
Quando não pode ser desfeita, 
É o mais humano 
E o mais trágico dos destinos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário