Na quietude azul das horas mais tardias,
Refazendo em sombra teus contornos loucos,
Teu rosto suspenso nas melancolias,
Como um retrato esquecido entre os sonhos.
Que ela encontre teu perfil exato e sereno,
Na curva suave da memória cansada,
Como quem toca um cristal pequeno
Com mãos de silêncio e madrugada,
Para não despertar a dor adormecida.
E que o vento das horas, quase invisível,
Mova de leve teus cabelos distantes,
Num gesto breve, secreto e sensível,
Como passam os antigos instantes
Pelas janelas frias do pensamento.
Há uma beleza triste nas ausências,
Porque nelas o amor aprende a permanecer;
Vive entre ecos, pequenas permanências,
Naquilo que o tempo não consegue esquecer,
Nem apagar do fundo da alma.
É bem assim que te guardo: incompleta e eterna,
Feita de lembrança, perfume e espera,
Como uma luz silenciosa e interna
Que atravessa a noite e persevera
Mesmo quando tudo parece partir.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário