terça-feira, 19 de maio de 2026

Teu exato perfil

É preciso que a saudade te desenhe aos poucos, 
Na quietude azul das horas mais tardias, 
Refazendo em sombra teus contornos loucos, 
Teu rosto suspenso nas melancolias, 
Como um retrato esquecido entre os sonhos. 

Que ela encontre teu perfil exato e sereno, 
Na curva suave da memória cansada, 
Como quem toca um cristal pequeno 
Com mãos de silêncio e madrugada, 
Para não despertar a dor adormecida. 

E que o vento das horas, quase invisível, 
Mova de leve teus cabelos distantes, 
Num gesto breve, secreto e sensível, 
Como passam os antigos instantes 
Pelas janelas frias do pensamento. 

Há uma beleza triste nas ausências, 
Porque nelas o amor aprende a permanecer; 
Vive entre ecos, pequenas permanências, 
Naquilo que o tempo não consegue esquecer, 
Nem apagar do fundo da alma. 

É bem assim que te guardo: incompleta e eterna, 
Feita de lembrança, perfume e espera, 
Como uma luz silenciosa e interna 
Que atravessa a noite e persevera 
Mesmo quando tudo parece partir. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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