quinta-feira, 16 de julho de 2026

Se o saber é pássaro

Só a tua consciência intelectual 
É farol que não pede navios; 
Acende-se, e o mar em que navego 
Revela não rotas, mas redemoinhos. 

Minha ignorância era um jardim 
Onde floresciam conceitos sem raiz; 
O vento da tua lucidez passa 
E levo tempo para notar 
Que as pétalas eram papel. 

Tu persuades como quem guia 
Um cego por um labirinto: 
Não empurras, apenas dizes 
Que a próxima esquina não tem saída. 
E eu, tentando manter a dignidade, 
Descubro que jamais soube a entrada. 

Se o saber é pássaro, 
O desconhecer é o céu, 
E céu não se possui. 

Assim tua consciência cresce 
Como árvore que não inveja sombra, 
E a minha, pensando ser floresta, 
Mostra-se apenas tronco e presunção. 

No fundo, persuadir é soprar 
Sobre o espelho das águas 
Até que o reflexo se parta, 
E o que eu chamava rosto 
Se revele apenas máscara de neblina. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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