quinta-feira, 16 de julho de 2026

Verdade sem ornamentos

Na estação vazia das horas esquecidas, 
Onde os relógios repetem o mesmo suspiro 
E a fumaça da tarde sobe entre telhados cansados, 
Encontrei a antiga ilusão da perfeição 
Abandonada sobre um banco de madeira. 

As ruas falavam em vozes fragmentadas, 
Ecos de promessas que ninguém recolheu. 
Entre vitrines apagadas e passos sem destino, 
Aprendi que os homens são feitos de remendos, 
De memórias partidas e pequenas persistências. 

Talvez eu não seja direito, 
Quem o é, sob a luz impiedosa das manhãs? 
Carrego corredores vazios dentro de mim, 
Gavetas cheias de cartas nunca enviadas, 
E perguntas que o tempo não respondeu. 

Contudo, há uma razão discreta nas coisas: 
O jardineiro que volta à terra ressequida, 
O velho que abre um livro gasto ao entardecer, 
A mulher que acende uma lâmpada na janela 
Contra o avanço inevitável da noite. 

E no intervalo entre um silêncio e outro, 
Entre o que fomos e o que jamais seremos, 
Permanece esta verdade sem ornamentos. 
Não perfeita, não eterna, não redimida: 
Amo-te do fundo do meu coração. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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