Com gosto de sangue na boca.
Não sei de onde vem.
Talvez de algum sonho esquecido,
Talvez de mim mesmo.
O espelho me olha
Como quem reconhece um monstro,
Mas sorri.
E eu sorrio de volta,
Porque sei:
A fome finalmente me moldou.
As mulheres não sabem,
Mas elas me alimentaram.
Não de prazer,
Mas de ausência.
Cada beijo recusado ao coração,
Cada toque que não alcançou a alma,
Me fortaleceu como um veneno amadurece na veia.
Agora, eu ouço.
Ouço a sede me chamar pelo nome.
Ela não fala com voz.
Fala com o frio que desce pela espinha,
Com o silêncio que me espera no quarto vazio,
Com os olhos de cada mulher que ainda não beijei,
E que já perdi.
Sou feito de vão.
Um templo sem altar.
Uma igreja onde o deus partiu,
Mas os fiéis continuam a rezar.
E há uma parte de mim que ri.
Ri porque entendeu, enfim:
A fome não é um castigo.
É minha verdadeira forma.
Tudo que amei era só distração.
Tudo que beijei, só carne.
E o que me habita é muito mais antigo que o amor.
Sou o que resta quando o desejo já não deseja.
Sou a sede que não se sacia
Porque nasceu do nada
E se alimenta de mim.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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