sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A fome que me chama pelo nome

 Tem noites em que acordo 
Com gosto de sangue na boca. 
Não sei de onde vem. 
Talvez de algum sonho esquecido, 
Talvez de mim mesmo. 
 
O espelho me olha 
Como quem reconhece um monstro, 
Mas sorri. 
E eu sorrio de volta, 
Porque sei: 
A fome finalmente me moldou. 
 
As mulheres não sabem, 
Mas elas me alimentaram. 
Não de prazer, 
Mas de ausência. 
Cada beijo recusado ao coração, 
Cada toque que não alcançou a alma, 
Me fortaleceu como um veneno amadurece na veia. 
 
Agora, eu ouço. 
Ouço a sede me chamar pelo nome. 
Ela não fala com voz. 
Fala com o frio que desce pela espinha, 
Com o silêncio que me espera no quarto vazio, 
Com os olhos de cada mulher que ainda não beijei, 
E que já perdi. 
 
Sou feito de vão. 
Um templo sem altar. 
Uma igreja onde o deus partiu, 
Mas os fiéis continuam a rezar. 
 
E há uma parte de mim que ri. 
Ri porque entendeu, enfim: 
A fome não é um castigo. 
É minha verdadeira forma. 
Tudo que amei era só distração. 
Tudo que beijei, só carne. 
E o que me habita é muito mais antigo que o amor. 
 
Sou o que resta quando o desejo já não deseja. 
Sou a sede que não se sacia 
Porque nasceu do nada 
E se alimenta de mim. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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