Rezando para slogans como cães famintos diante do dono.
A linguagem virou mercado, culto e algema,
Vendida em parcelas por pregadores e anúncios luminosos.
Ninguém pensa: apenas compartilha a febre coletiva.
As bocas se movem como máquinas mal programadas
Enquanto a consciência apodrece nos esgotos da pressa.
Eu caminho entre infectados que chamam obediência de paz,
Gente que terceiriza a alma para caber na multidão.
Trocam pensamento por curtidas, silêncio por ruído,
E ainda sorriem como cadáveres maquiados para a televisão.
Toda mentira hoje vem embalada em linguagem bonita,
Porque a verdade perdeu espaço para o espetáculo
E o mundo prefere o brilho da peste ao peso da lucidez.
Eu também fui contaminado por esse circo de vozes,
Mas sobrevivi o suficiente para reconhecer o veneno.
Agora escrevo como quem cospe sangue sobre os altares,
Rasgando discursos que transformam pessoas em rebanho.
A linguagem continua sendo um vírus incurável,
Mas talvez a poesia ainda seja a febre necessária
Para destruir os parasitas escondidos dentro das palavras.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário