sexta-feira, 17 de julho de 2026

Rezando para os slogans

Eu vejo pessoas ajoelhadas diante de frases vazias, 
Rezando para slogans como cães famintos diante do dono. 
A linguagem virou mercado, culto e algema, 
Vendida em parcelas por pregadores e anúncios luminosos. 
Ninguém pensa: apenas compartilha a febre coletiva. 
As bocas se movem como máquinas mal programadas 
Enquanto a consciência apodrece nos esgotos da pressa. 

Eu caminho entre infectados que chamam obediência de paz, 
Gente que terceiriza a alma para caber na multidão. 
Trocam pensamento por curtidas, silêncio por ruído, 
E ainda sorriem como cadáveres maquiados para a televisão. 
Toda mentira hoje vem embalada em linguagem bonita, 
Porque a verdade perdeu espaço para o espetáculo 
E o mundo prefere o brilho da peste ao peso da lucidez. 

Eu também fui contaminado por esse circo de vozes, 
Mas sobrevivi o suficiente para reconhecer o veneno. 
Agora escrevo como quem cospe sangue sobre os altares, 
Rasgando discursos que transformam pessoas em rebanho. 
A linguagem continua sendo um vírus incurável, 
Mas talvez a poesia ainda seja a febre necessária 
Para destruir os parasitas escondidos dentro das palavras. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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