sexta-feira, 22 de maio de 2026

Ergueram altares para a ignorância

Ergueram altares para a ignorância 
Como quem acende velas diante de um espelho vazio. 
Os homens cansados ajoelharam sem perguntas, 
Aceitando migalhas de certezas mastigadas. 
Os profetas surgiram vestidos de promessas luminosas, 
Com mãos cheias de sonhos frágeis 
E olhos incapazes de suportar a própria verdade. 
 
No mar de não ter razão 
Barcos seguem sem direção alguma. 
Os remos foram trocados por discursos 
E a tempestade passou a ser chamada de destino. 
 
Existe um conforto estranho em não pensar profundamente. 
A dúvida pesa mais que correntes antigas. 
Por isso muitos preferem os vendedores de esperança rápida, 
Os sacerdotes da resposta simples, 
Os homens que transformam medo em bandeira. 
Enquanto isso, a noite cresce silenciosa 
Sobre cidades cheias de vozes e vazios. 
 
Os sonhadores falsos conhecem a fome coletiva. 
Oferecem horizontes pintados sobre fumaça. 
Chamam delírio de liberdade 
E cegueira de fé necessária. 
 
Mesmo assim, em algum lugar distante, 
Permanece alguém observando o céu sem aplausos. 
Alguém que escuta o rumor das ondas 
E percebe o naufrágio escondido nas palavras grandiosas. 
Quem sabe a lucidez seja apenas isso. 
Continuar procurando sentido entre ruínas 
Sem transformar a própria ignorância em reino. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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