domingo, 18 de janeiro de 2026

O poeta espera

 Em tudo o que se espera, há uma fome. 
E quem espera demais inventa mundos, 
Não para preenchê-los, 
Mas para não cair neles. 
 
A imaginação nunca pede licença: ela grita. 
Não fala para o ouvido, fala para os olhos. 
É por isso que alguns olhares sangram ideias. 
 
O poeta espera — mas o tempo não. 
E no atraso do mundo 
Surgem criaturas que só ele vê, 
Nascidas de um medo tímido 
E de uma coragem clandestina. 
 
Há limites que só existem 
Para quem não os encontra. 
O poeta encontra, 
E por isso volta ferido. 
Mas volta. 
 
Quando nada acontece, a mente inventa. 
Quando tudo acontece de uma vez, a mente ri. 
O poeta é o único que se assusta com os dois. 
 
O limite da imaginação é o corpo: 
Ela quer se estender 
Até onde o sangue não chega. 
O resto é vertigem. 
 
Quem espera demais aprende a ver no escuro. 
E ver no escuro é um tipo de destino. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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