terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Vejo olhares

 Eu ando pelo mundo prestando atenção 
Em olhares que eu nem sei o nome. 
Há algo de ancestral nesse hábito, 
Como se o passado ainda respirasse 
No intervalo entre um piscar e outro. 
 
O olhar precede o nome: 
Ele chega antes de qualquer vocabulário, 
Antes da árvore genealógica, 
Antes das biografias que inventamos para caber. 
 
O nome é uma convenção tardia; 
Os olhos são o primeiro idioma. 
E nesse idioma, ninguém é exatamente quem diz ser. 
 
Vejo olhares que pedem absolvição, 
Olhares que tentam disfarçar a própria vertigem, 
Olhares que não suportam o peso da consciência 
E desviam antes de serem flagrados. 
 
Alguns olhares guardam perguntas 
Que ninguém ousou formular; 
Outros, respostas que jamais serão pronunciadas. 
 
Se o mundo tem um alfabeto secreto, 
Ele está nos olhos, 
Um léxico sem gramática, 
Movido por hesitações, por sustos, 
Por pequenas intenções que a boca não assume. 
 
E eu, que não sei o nome de ninguém, 
Coleciono esse idioma sem dicionário, 
Feito de ecos que não se repetem. 
 
Talvez seja por isso que os olhos cansam: 
Porque carregam tudo que escapa à linguagem, 
Tudo que não pode ser lembrado 
Sem antes nos ferir. 
 
No fim, olho por olhar, 
Sem esperar conclusão. 
Pois talvez o sentido não esteja no que se revela, 
Mas no fato de que algo insiste em olhar de volta. 
 
E então compreendo: 
Não sou eu quem observa, 
Sou observado pelo mundo, 
E o nome disso, se é que existe, 
Não cabe em nenhum nome. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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