Em olhares que eu nem sei o nome.
Há algo de ancestral nesse hábito,
Como se o passado ainda respirasse
No intervalo entre um piscar e outro.
O olhar precede o nome:
Ele chega antes de qualquer vocabulário,
Antes da árvore genealógica,
Antes das biografias que inventamos para caber.
O nome é uma convenção tardia;
Os olhos são o primeiro idioma.
E nesse idioma, ninguém é exatamente quem diz ser.
Vejo olhares que pedem absolvição,
Olhares que tentam disfarçar a própria vertigem,
Olhares que não suportam o peso da consciência
E desviam antes de serem flagrados.
Alguns olhares guardam perguntas
Que ninguém ousou formular;
Outros, respostas que jamais serão pronunciadas.
Se o mundo tem um alfabeto secreto,
Ele está nos olhos,
Um léxico sem gramática,
Movido por hesitações, por sustos,
Por pequenas intenções que a boca não assume.
E eu, que não sei o nome de ninguém,
Coleciono esse idioma sem dicionário,
Feito de ecos que não se repetem.
Talvez seja por isso que os olhos cansam:
Porque carregam tudo que escapa à linguagem,
Tudo que não pode ser lembrado
Sem antes nos ferir.
No fim, olho por olhar,
Sem esperar conclusão.
Pois talvez o sentido não esteja no que se revela,
Mas no fato de que algo insiste em olhar de volta.
E então compreendo:
Não sou eu quem observa,
Sou observado pelo mundo,
E o nome disso, se é que existe,
Não cabe em nenhum nome.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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