É perguntar ao tempo se o efêmero pode durar.
O escritor traça linhas não para explicar o mundo,
Mas para lembrar
Que ele não cabe inteiro em explicação alguma.
Cada palavra é uma hipótese de existência,
Um gesto contra a entropia das coisas.
E mesmo assim, a página é um deserto
Onde nenhum passo é certo até ser dado.
A escrita não busca certezas,
Ela fabrica perguntas mais nítidas.
É um modo de pensar sem obedecer,
De sentir sem pedir licença,
De existir sem garantia.
Na literatura, o real não vence o imaginário:
Convive com ele,
Como dois estranhos que dividem o mesmo silêncio.
E do atrito entre ambos
Surge o brilho raro das metáforas.
Porque escrever é admitir
Que o mundo é insuficiente,
E que só nos resta ampliar suas arestas.
No fim, o papel não guarda respostas,
Guarda apenas o rastro de quem ousou procurar.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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