sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Confissão silenciosa

Não disse palavra. 
Mas o mundo inteiro ouviu. 
 
Havia um rumor antigo na minha alma, 
Como quem empurra portas fechadas 
E encontra apenas o eco da própria respiração. 
 
A ilusão era minha — sempre foi. 
Nenhuma voz me enganou, 
Nenhum olhar prometeu o que não podia cumprir. 
Fui eu quem enfeitou o abismo, 
Pintou pontes onde só havia precipício, 
E chamou de caminho aquilo que era só vertigem. 
 
Quantas vezes o desejo costurou milagres 
Com linhas que não existiam? 
Quantas manhãs acordei jurando 
Que o impossível cedo ou tarde iria ceder? 
 
Não cedeu. 
Eu cedi. 
 
E na hora em que a verdade finalmente chegou, 
Não houve gritos, nem tempestades, 
Apenas um leve estremecer, 
A nudez de um pensamento cansado, 
E um silêncio tão pesado 
Que quase fazia barulho. 
 
Minha confissão não coube na voz. 
Coube apenas em mim: 
O reconhecimento de que a fantasia era obra-prima, 
Mas o artista era cego. 
 
E foi assim que aprendi, tarde, mas inteiro, 
Que às vezes a mentira mais cruel 
Não vem do outro, 
Vem do amor que inventamos 
Para não morrer de falta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário