Não disse palavra.
Mas o mundo inteiro ouviu.
Havia um rumor antigo na minha alma,
Como quem empurra portas fechadas
E encontra apenas o eco da própria respiração.
A ilusão era minha — sempre foi.
Nenhuma voz me enganou,
Nenhum olhar prometeu o que não podia cumprir.
Fui eu quem enfeitou o abismo,
Pintou pontes onde só havia precipício,
E chamou de caminho aquilo que era só vertigem.
Quantas vezes o desejo costurou milagres
Com linhas que não existiam?
Quantas manhãs acordei jurando
Que o impossível cedo ou tarde iria ceder?
Não cedeu.
Eu cedi.
E na hora em que a verdade finalmente chegou,
Não houve gritos, nem tempestades,
Apenas um leve estremecer,
A nudez de um pensamento cansado,
E um silêncio tão pesado
Que quase fazia barulho.
Minha confissão não coube na voz.
Coube apenas em mim:
O reconhecimento de que a fantasia era obra-prima,
Mas o artista era cego.
E foi assim que aprendi, tarde, mas inteiro,
Que às vezes a mentira mais cruel
Não vem do outro,
Vem do amor que inventamos
Para não morrer de falta.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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