sábado, 10 de janeiro de 2026

Pense em mim

 Pense em mim como a noite sem lua 
Que antecede a ruína dos impérios. 
As ruas estão vazias, 
Mas o coração ainda pulsa, 
E é por esse último pulso 
Que o mundo decide adiar o colapso. 
 
Pense em mim como o frio que visita a cidade 
Antes do grande desfecho. 
Tudo perece — menos o desejo. 
É ele quem, teimoso, ilumina o apocalipse 
Com um resto de esperança. 
 
Pense em mim como o eclipse do amor, 
Quando o céu se parte e o tempo falha. 
As janelas se trancam, os passos cessam, 
Mas um perfume insiste na madrugada, 
Como se até o fim do mundo precisasse ser amado. 
 
Pense em mim como o último inverno, 
Aquele que os profetas esqueceram de anunciar. 
As ruas vazias testemunham a queda das eras, 
E, ainda assim, o calor da tua lembrança 
Faz o cataclismo tremer. 
 
Pense em mim como o apocalipse das flores, 
Que murcham sem drama, 
Mas perfumam o abismo. 
Pois mesmo quando tudo termina, 
O amor exige um cenário digno. 
 
Pense em mim como a noite que devora o sol, 
Não por ódio, mas por saudade. 
E quando a luz desaparecer, 
Tu saberás: há fins que só acontecem 
Porque alguém amou demais. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário