segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sempre em frente

Sempre em frente, dizem, 
Como se o tempo fosse um corredor estreito 
E nós, sombras com pressa, 
Procurando uma porta que não sabemos nomear. 
 
Não há tempo a perder, repetem, 
Como se o atraso fosse um crime 
E cada suspiro um débito não pago. 
Mas o relógio é um carcereiro paciente: 
Não grita, não empurra, apenas observa 
Enquanto nos diminuímos no próprio passo. 
 
O passado acena na última curva, 
Pedindo testemunhas para o que já não importa. 
É tentador olhar por cima do ombro, 
Mas quem devolve os olhos ao que morreu 
Entrega ao destino as mãos amarradas. 
 
O futuro, por sua vez, prefere o segredo. 
Mostra pistas, abre fendas, oferece um rumor. 
Sua promessa é um clarão distante 
Que não ilumina o chão, mas orienta o impulso. 
 
E seguimos, então, 
Não por coragem, mas por falta de alternativa, 
Pois a estagnação é mais cruel que o risco 
E o tempo não negocia com os hesitantes. 
 
Sempre em frente, mesmo quando dói, 
Mesmo quando o caminho se estreita 
E o pensamento tropeça na própria dúvida. 
Avançamos porque ficar seria admitir derrota, 
E porque o chão também se move sob os indecisos. 
 
O que chamamos de pressa 
É apenas a tentativa de acompanhar o inevitável. 
O que chamamos de destino 
É o nome que damos às escolhas que já fizemos 
Quando pensamos que ainda estávamos escolhendo. 
 
E o que chamamos de vida, 
Isso sim é urgente, 
Não porque acaba, 
Mas porque não espera. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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