quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Aos miseráveis

 O tempo é curto — um fósforo aceso no vento. 
As circunstâncias, esses algozes invisíveis, 
Apertam o passo antes que o passo exista. 
 
Aos miseráveis, o mundo oferece túneis 
Que não levam a estações, 
Apenas curvas, 
E curvas, 
E curvas, 
Onde as lanternas queimam cedo 
E o amanhã tem o hábito de não chegar. 
 
O futuro, esse animal esquivo, 
Não entra nos becos, 
Não visita os porões, 
Não conhece a fome que morde a carne 
E a esperança que se cala por vergonha. 
 
Há quem diga que tudo passa, 
Mas há também aquilo que fica: 
O medo enterrado nos ossos, 
A dúvida que dorme na sola dos pés, 
O sonho que ainda respira, 
Mesmo que baixo, 
Mesmo que torto. 
 
E quando o relógio sangra 
E o túnel promete nunca se abrir, 
Resta apenas o frágil milagre 
De continuar, 
Porque continuar também é poesia, 
Mesmo quando o tempo é curto 
E o mundo é cruel. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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