As circunstâncias, esses algozes invisíveis,
Apertam o passo antes que o passo exista.
Aos miseráveis, o mundo oferece túneis
Que não levam a estações,
Apenas curvas,
E curvas,
E curvas,
Onde as lanternas queimam cedo
E o amanhã tem o hábito de não chegar.
O futuro, esse animal esquivo,
Não entra nos becos,
Não visita os porões,
Não conhece a fome que morde a carne
E a esperança que se cala por vergonha.
Há quem diga que tudo passa,
Mas há também aquilo que fica:
O medo enterrado nos ossos,
A dúvida que dorme na sola dos pés,
O sonho que ainda respira,
Mesmo que baixo,
Mesmo que torto.
E quando o relógio sangra
E o túnel promete nunca se abrir,
Resta apenas o frágil milagre
De continuar,
Porque continuar também é poesia,
Mesmo quando o tempo é curto
E o mundo é cruel.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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