Mas o vazio de quem o atravessa.
A temporalidade do instante é clara,
Transparente como um vidro frágil
No qual a eternidade apenas encosta a testa.
O que me fere é a mediocridade dos afetos,
Os sentimentos mornos,
Aquela indiferença que se veste de prudência
Mas carrega o mesmo tédio dos mortos.
Pois todos caminhamos para um destino comum,
Um fim que não barganha
Nem mede esforços
Para nivelar todas as vaidades no mesmo chão.
E, ainda assim, há quem viva como se não soubesse,
Como se o tempo fosse um privilégio privado,
Como se o coração pudesse
Adiar a própria chama.
Não temo a brevidade — ela é justa.
Assusta-me o que não arde,
Assusta-me o que não sente,
Pois pouco importa o tamanho do relógio
Se a alma permanece imóvel.
Afinal, não há diferença entre o homem
Que se atira ao seu destino
E o que ali chega arrastado:
A mesma porta se abre,
A mesma poeira se recolhe,
O mesmo silêncio testemunha.
O tempo, este discreto carrasco,
Não mata ninguém duas vezes.
Quem o desperdiça, faz o serviço por ele.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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