quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O lado oposto

É na transparência do lado oposto 
Que se descobre o avesso da alma; 
O vidro que separa não protege, 
Apenas denuncia o que já sabíamos sentir. 
 
A verdade não se revela na lucidez das palavras, 
Mas no reflexo que elas deixam nas pupilas; 
Lá onde o desgosto se aloja 
Como sombra que não se quer nomear. 
 
Diante do espelho do outro, 
Somos flagrados pelo que negamos ser; 
A transparência não consola, 
Mas esclarece, 
E tudo que se esclarece, dói. 
 
Há uma franqueza silenciosa 
No reflexo que nos devolve o mundo: 
Ele não mente, não poupa, não adorna. 
Apenas mostra, em traços de luz, 
O que tentamos ocultar na penumbra da aparência. 
 
O inconsolável se anuncia no rosto, 
Como um suspiro que se derrama pelos olhos. 
E é nesse gesto involuntário 
Que a verdade encontra passagem 
E se revela — sem pedir licença. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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