É na transparência do lado oposto
Que se descobre o avesso da alma;
O vidro que separa não protege,
Apenas denuncia o que já sabíamos sentir.
A verdade não se revela na lucidez das palavras,
Mas no reflexo que elas deixam nas pupilas;
Lá onde o desgosto se aloja
Como sombra que não se quer nomear.
Diante do espelho do outro,
Somos flagrados pelo que negamos ser;
A transparência não consola,
Mas esclarece,
E tudo que se esclarece, dói.
Há uma franqueza silenciosa
No reflexo que nos devolve o mundo:
Ele não mente, não poupa, não adorna.
Apenas mostra, em traços de luz,
O que tentamos ocultar na penumbra da aparência.
O inconsolável se anuncia no rosto,
Como um suspiro que se derrama pelos olhos.
E é nesse gesto involuntário
Que a verdade encontra passagem
E se revela — sem pedir licença.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário