E ainda assim caminhe
Como um mendigo da própria vida.
Há quem tenha o sol dentro de casa,
Mas prefira o frio das sombras que inventa.
Alguns seguram a felicidade pelas bordas,
Sem perceber que ela
Escorre pelos dedos porque não a nomeiam.
Viver como se nada tivesse
É uma espécie de cegueira escolhida,
Um modo elegante de desperdiçar milagres.
Os que não enxergam o que têm
Colecionam fantasmas,
Sentem falta do que nunca perderam,
Lamentam o que nunca procuraram.
É triste, mas é humano:
Há corações que só descobrem o valor do calor
Quando já desaprenderam a acender fogo.
E quando finalmente percebem o que tinham,
Não é mais posse, é memória.
E memória não abraça,
Não consola, não devolve.
Só pesa.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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