Como quem atravessa névoas sem destino,
Onde a palavra nasce indecisa e fria,
Mas arde por dentro como um hino,
Que só o silêncio compreende e anuncia.
Há noites em que me perco no egoísmo,
E encontro um outro que nunca fui,
Um rosto feito de verso suspenso no abismo,
Um eco de tudo que em mim dilui,
Como se o sonho fosse meu batismo.
Escrevo sem saber de onde vem
Essa urgência mansa que me invade,
Como se alguém sussurrasse além
Dos limites frágeis da realidade,
Um segredo que ninguém mais contém.
E cada palavra é um passo no escuro,
Um risco traçado no ar da memória,
Um gesto incerto, profundo e impuro,
Tentando reescrever minha própria história,
Num tempo que não conhece futuro.
Quando desperto, já não sou inteiro,
Fica em mim o que o sonho deixou,
Um verso torto, um sentir derradeiro,
Um rastro do que nunca se explicou,
Mas que vive em mim, eterno e primeiro.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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