domingo, 20 de setembro de 2026

Condenados ao tempo

 A noite não me pergunta quem sou. 
Apenas estende sua escuridão sobre mim. 
Nela descubro que a ausência também respira, 
E que existir, às vezes, 
É permanecer onde ninguém ficou. 
 
Procuro teu rosto na memória, 
Mas a lembrança nunca devolve a presença. 
O passado é um espelho quebrado: 
Reflete tudo, 
Menos aquilo que ainda desejo tocar. 
 
As horas não possuem piedade. 
Não aceleram por amor nem retardam pela dor. 
Somos viajantes condenados ao tempo, 
Colecionando perguntas 
Que jamais encontrarão resposta. 
 
Pode ser que o amor seja apenas isto. 
Um sentido que inventamos para desafiar o vazio. 
Quando partes, permanece a consciência 
De que até a esperança 
É uma forma delicada de solidão. 
 
No meu silêncio eu ainda escrevo. 
Não para chamar teu nome de volta, 
Mas para impedir que o silêncio me defina. 
Se nada possui permanência, 
Que ao menos o verso sobreviva a mim. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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