domingo, 18 de outubro de 2026

Domesticar o caos

 Tudo o que se espera já pertence ao abismo. 
O tempo não concede, apenas adia. 
E enquanto adia, nos obriga a inventar sentido 
Para que o vazio não nos engula vivos. 
O poeta descobre cedo demais 
Que imaginar não é luxo, é defesa. 
Pois o real é sempre insuficiente 
Para quem percebe demais. 
 
Há um momento em que o olhar pensa, 
E ao pensar, se condena. 
Porque ver é assumir o peso da existência, 
E pensar o que se vê é tocar o limite do ser. 
Na espera, o desejo se torna pergunta: 
“Por que algo ao invés de nada?” 
E cada resposta nasce falha, 
Como se o pensamento soubesse 
Que não há justificativa para existir, 
Apenas hábito. 
 
O limite da imaginação não é o impossível, 
Mas a consciência. 
Pois a consciência quer forma, 
Enquanto o mundo é fluxo. 
Tudo o que se sonha 
É uma tentativa de domesticar o caos. 
E tudo o que se teme 
É uma tentativa de não ter de habitá-lo. 
 
Esperar é ser lançado ao tempo; 
Imaginar, ao contrário, 
É tentar roubá-lo. 
O poeta reconhece, no fim, 
Que não há triunfo em criar abismos, 
Apenas o direito de não ser devorado por eles. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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