E talvez seja justamente essa escuridão
Que me destranca.
É como se teu olhar inexistente
Me empurrasse contra algo que não tem nome,
Algo quente demais para caber no peito.
Tua ausência me toca.
Sim, me toca.
Sinto-a percorrendo meu corpo
Como uma vertigem que sobe devagar,
Um movimento interno que me toma de surpresa,
Que me faz respirar curto
E querer que a noite não acabe nunca.
O desejo que não posso sentir
É o que mais me atravessa.
Ele chega sem pedir licença,
Como um calor que se acende no centro de mim
E se espalha, lento e violento, ocupando tudo.
É quase cruel
Como teu nada me inflama tanto.
Às vezes imagino teu rosto próximo ao meu,
Demais, perigoso, urgente.
Imagino o instante antes, sempre antes,
Em que tua boca não toca,
Mas ameaça tocar.
Esse espaço minúsculo entre nós
É puro incêndio.
É ali que meu corpo te reconhece
Como se já tivesse sido teu em outra vida,
Ou numa fantasia tão funda
Que dói confessar.
E eu cedo.
Cedo ao que não existe,
Ao que não tem forma,
Ao que só me encontra por dentro.
Teu invisível se deita sobre mim
Como um peso quente,
Um abraço que quase machuca de tão ansioso.
E cada pensamento teu entra em mim
Como se atravessasse todas as portas
Que passei a vida inteira segurando fechadas.
Eu te desejo tanto
Porque não posso te tocar.
Essa falta,
Essa provocação constante,
Torna tudo mais afiado, mais vivo,
Mais perigoso.
Há vontades que o corpo não admite em voz alta,
Mas que gritam quando ninguém vê.
E quando penso em você,
Nesses olhos que nunca existiram,
Algo em mim se curva, se abre,
Se entrega ao impossível.
O impossível, teu território favorito,
Onde me queimo inteiro e volto pedindo mais.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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