sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Essa delicada vertigem

O amor não chegou como tempestade. 
Veio manso, quase distraído, 
Quando teu sorriso atravessou o instante 
Como quem abre uma janela 
Em uma casa que já desaprendera a luz. 
 
Não foi escolha, nem coragem. 
Foi acontecimento. 
Algo em mim, silencioso e antigo, 
Reconheceu em ti um abrigo improvável, 
Como se a alma 
Tivesse memória do que nunca viveu. 
 
Teu sorriso, tão simples, tão desarmado, 
Fez ruir defesas que eu chamava de razão. 
E, de repente, senti nascer 
Essa delicada vertigem 
De querer permanecer em um outro ser. 
 
Há sorrisos que apenas enfeitam o mundo. 
O teu, não. 
O teu reorganizou constelações internas, 
Deu nome ao que em mim era apenas ausência, 
E transformou o acaso em destino íntimo. 
 
Se amor tem um princípio, talvez seja esse: 
Um breve gesto, um clarão involuntário, 
Capaz de acender eternidades 
No espaço mínimo de um olhar 
Que decide ficar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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