O amor não chegou como tempestade.
Veio manso, quase distraído,
Quando teu sorriso atravessou o instante
Como quem abre uma janela
Em uma casa que já desaprendera a luz.
Não foi escolha, nem coragem.
Foi acontecimento.
Algo em mim, silencioso e antigo,
Reconheceu em ti um abrigo improvável,
Como se a alma
Tivesse memória do que nunca viveu.
Teu sorriso, tão simples, tão desarmado,
Fez ruir defesas que eu chamava de razão.
E, de repente, senti nascer
Essa delicada vertigem
De querer permanecer em um outro ser.
Há sorrisos que apenas enfeitam o mundo.
O teu, não.
O teu reorganizou constelações internas,
Deu nome ao que em mim era apenas ausência,
E transformou o acaso em destino íntimo.
Se amor tem um princípio, talvez seja esse:
Um breve gesto, um clarão involuntário,
Capaz de acender eternidades
No espaço mínimo de um olhar
Que decide ficar.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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