quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Um breve clarão entre dois mistérios

 O dia começa antes de nós. 
Quando ainda somos promessa e sonho, 
Ele já caminha, indiferente, 
Vestindo a luz sem pedir licença, 
Abrindo portas que não vimos. 
 
A manhã não nos espera. 
Ela simplesmente acontece, 
Como um rio que ignora margens, 
Como o tempo que não negocia 
Com nossas vontades tardias. 
 
Vivemos na ilusão do comando, 
Mas o dia nunca foi rédea, 
É vento, é curso, é queda. 
Passa por nossas mãos 
Como areia que não se deixa prender. 
 
Ao entardecer, compreendemos: 
Muito do que fomos já não cabe em nós. 
O sol se despede sem consulta, 
E a sombra cresce, serena, 
Lembrando-nos da nossa medida. 
 
E a noite vem, soberana, 
Fechando o que não terminamos, 
Silenciando o que não dissemos. 
O dia termina como começou: 
Sem jamais ter sido nosso. 
 
Ainda assim, há beleza nisso, 
Naquilo que não governamos, 
Naquilo que apenas atravessamos. 
Pois viver, talvez, seja isto: 
Um breve clarão entre dois mistérios. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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