sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Política brasileira

Há um cansaço antigo morando nas praças, 
Um eco de promessas que nunca aprenderam a pousar. 
Discursos nascem como fogos de artifício, 
Luminosos, breves, ensurdecedores, 
E morrem antes de tocar o chão da vida comum. 
 
A esperança, essa teimosa, ainda caminha, 
Mesmo ferida, mesmo usada como slogan. 
Carrega nos ombros o peso de urnas e manchetes, 
Enquanto o povo, sempre o povo, 
Coleciona sobrevivências em vez de conquistas. 
 
Em Brasília, as palavras vestem ternos caros, 
Giram em salões polidos, brindam entre si. 
Longe dali, a realidade mastiga o salário mínimo, 
Devora o tempo, corrói a paciência, 
E ri amarga de cada nova reforma salvadora. 
 
A política, que deveria ser ponte, 
Transforma-se tantas vezes em palco. 
E o cidadão, figurante involuntário, 
Assiste ao espetáculo de alianças improváveis 
Como quem vê nuvens prometendo chuva que não vem. 
 
Mas sob o concreto das decepções repetidas, 
Algo ainda pulsa, quase invisível, quase ingênuo. 
Porque desistir seria entregar o futuro 
À mesma engrenagem que nos cansa. 
E até o desencanto, no fundo, 
É uma forma de esperança ferida. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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