Como quem atravessa um sonho contaminado de ferrugem.
As avenidas me engolem com seus ruídos metálicos,
E meus olhos ardem sob as lâmpadas do excesso.
Às vezes sinto meu nome desaparecer nas vitrines,
Como se a cidade me mastigasse lentamente
Sob o ópio cinzento das madrugadas intermináveis.
Eu retorno para casa carregando silêncios partidos,
Com o corpo exausto de atravessar multidões vazias.
Cada janela acesa me parece um pequeno sepulcro,
Onde alguém adormeceu antes mesmo de viver.
Vejo mendigos conversando com a própria sombra,
E trabalhadores desabando dentro dos ônibus noturnos
Como prédios corroídos por dentro e ainda de pé.
Ainda escuto alguma coisa pulsando na névoa,
Uma voz distante sob o concreto e o néon.
Eu observo as rachaduras escondidas nos edifícios
E percebo a tristeza respirando entre os fios elétricos.
Talvez eu também esteja ruindo silenciosamente,
Mas continuo acordado em meio à fumaça da cidade,
Tentando salvar algum fragmento de humanidade.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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