sábado, 23 de maio de 2026

Em meio à fumaça da cidade

Eu caminho entre fumaças e anúncios luminosos, 
Como quem atravessa um sonho contaminado de ferrugem. 
As avenidas me engolem com seus ruídos metálicos, 
E meus olhos ardem sob as lâmpadas do excesso. 
Às vezes sinto meu nome desaparecer nas vitrines, 
Como se a cidade me mastigasse lentamente 
Sob o ópio cinzento das madrugadas intermináveis. 

Eu retorno para casa carregando silêncios partidos, 
Com o corpo exausto de atravessar multidões vazias. 
Cada janela acesa me parece um pequeno sepulcro, 
Onde alguém adormeceu antes mesmo de viver. 
Vejo mendigos conversando com a própria sombra, 
E trabalhadores desabando dentro dos ônibus noturnos 
Como prédios corroídos por dentro e ainda de pé. 

Ainda escuto alguma coisa pulsando na névoa, 
Uma voz distante sob o concreto e o néon. 
Eu observo as rachaduras escondidas nos edifícios 
E percebo a tristeza respirando entre os fios elétricos. 
Talvez eu também esteja ruindo silenciosamente, 
Mas continuo acordado em meio à fumaça da cidade, 
Tentando salvar algum fragmento de humanidade. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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