sábado, 23 de maio de 2026

Onde quase ninguém ousa olhar

As pequenas coisas atravessam a cidade sem serem chamadas 
Escorrem pelos cantos dos muros rachados 
Dormem sob os bancos antigos das praças 
Carregam poeira nas costas como quem carrega eras. 
Enquanto os homens erguem vozes sobre destinos grandiosos 
Elas apenas continuam existindo em silêncio 
Como se o mundo dependesse justamente do que ninguém percebe. 

Há olhos cobertos pela fumaça do hábito 
Lentes cansadas pela velocidade dos dias. 
Ninguém se curva para ouvir o rumor do chão 
As vitrines falam mais alto que os insetos noturnos 
E a pressa transforma tudo em superfície. 
 
Uma folha esquecida desliza pela calçada molhada, 
Um cão magro observa o vazio da madrugada. 
As ferrugens desenham continentes secretos nas grades 
O limo cresce paciente nas paredes antigas 
E existe uma espécie de eternidade nesses movimentos mínimos 
Algo que resiste sem precisar de testemunhas 
Algo que não pede permissão para permanecer. 

Os relógios continuam mastigando as horas humanas, 
Mas o musgo desconhece a ansiedade. 
As pequenas vidas seguem seu curso invisível 
Por detrás dos óculos poluídos da cidade 
Há universos inteiros respirando devagar. 

Quem sabe o mundo verdadeiro esteja escondido nas beiradas 
Nos lugares onde a luz não deseja permanecer 
Nas coisas que envelhecem sem importância pública 
Nos restos esquecidos após o espetáculo das multidões. 
Talvez sejamos nós os distraídos diante da existência 
Enquanto o ínfimo aprende silenciosamente a sobreviver 
Dentro das esquinas onde ninguém mais ousa olhar. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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