Escorrem pelos cantos dos muros rachados
Dormem sob os bancos antigos das praças
Carregam poeira nas costas como quem carrega eras.
Enquanto os homens erguem vozes sobre destinos grandiosos
Elas apenas continuam existindo em silêncio
Como se o mundo dependesse justamente do que ninguém percebe.
Há olhos cobertos pela fumaça do hábito
Lentes cansadas pela velocidade dos dias.
Ninguém se curva para ouvir o rumor do chão
As vitrines falam mais alto que os insetos noturnos
E a pressa transforma tudo em superfície.
Uma folha esquecida desliza pela calçada molhada,
Um cão magro observa o vazio da madrugada.
As ferrugens desenham continentes secretos nas grades
O limo cresce paciente nas paredes antigas
E existe uma espécie de eternidade nesses movimentos mínimos
Algo que resiste sem precisar de testemunhas
Algo que não pede permissão para permanecer.
Os relógios continuam mastigando as horas humanas,
Mas o musgo desconhece a ansiedade.
As pequenas vidas seguem seu curso invisível
Por detrás dos óculos poluídos da cidade
Há universos inteiros respirando devagar.
Quem sabe o mundo verdadeiro esteja escondido nas beiradas
Nos lugares onde a luz não deseja permanecer
Nas coisas que envelhecem sem importância pública
Nos restos esquecidos após o espetáculo das multidões.
Talvez sejamos nós os distraídos diante da existência
Enquanto o ínfimo aprende silenciosamente a sobreviver
Dentro das esquinas onde ninguém mais ousa olhar.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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