Um teto baixo sobre os pensamentos cansados,
E cada passo parece um acordo com o desgaste,
Como se existir fosse um fardo inevitável,
Um silêncio denso onde até o respirar dói.
Mas há um lugar escondido, ninguém vê,
Um recanto guardado entre lembranças intactas,
Onde a luz ainda chega sem pedir licença,
E o tempo não aprendeu a ferir as horas,
Nem a transformar sonhos em cinzas.
Lá, a alma corre sem nome nem destino,
Inventa mundos com as mãos vazias,
Faz do nada um universo inteiro pulsando,
E do riso, uma linguagem suficiente,
Para dizer tudo sem dizer palavra alguma.
Quando reencontro esse abrigo esquecido,
Algo em mim desaprende o peso do mundo,
As dores se tornam distantes, quase irreais,
Como ecos de uma vida que não me alcança,
Como sombras incapazes de me prender.
Compreendo, então, com doçura e espanto.
Não era a vida que me sufocava por inteiro,
Era o esquecimento desse lugar em mim,
Onde ainda sou livre, inteiro, infinito,
Como uma infância que nunca termina.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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