quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Uma infância que nunca termina

 Existem dias que a vida pesa como um céu sem vento, 
Um teto baixo sobre os pensamentos cansados, 
E cada passo parece um acordo com o desgaste, 
Como se existir fosse um fardo inevitável, 
Um silêncio denso onde até o respirar dói. 
 
Mas há um lugar escondido, ninguém vê, 
Um recanto guardado entre lembranças intactas, 
Onde a luz ainda chega sem pedir licença, 
E o tempo não aprendeu a ferir as horas, 
Nem a transformar sonhos em cinzas. 
 
Lá, a alma corre sem nome nem destino, 
Inventa mundos com as mãos vazias, 
Faz do nada um universo inteiro pulsando, 
E do riso, uma linguagem suficiente, 
Para dizer tudo sem dizer palavra alguma. 
 
Quando reencontro esse abrigo esquecido, 
Algo em mim desaprende o peso do mundo, 
As dores se tornam distantes, quase irreais, 
Como ecos de uma vida que não me alcança, 
Como sombras incapazes de me prender. 
 
Compreendo, então, com doçura e espanto. 
Não era a vida que me sufocava por inteiro, 
Era o esquecimento desse lugar em mim, 
Onde ainda sou livre, inteiro, infinito, 
Como uma infância que nunca termina. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário