sexta-feira, 29 de maio de 2026

Quando ouso te escrever

Juro que tentei 
Mas não consegui descrever 
A sua beleza em um poema. 
Não por falta de vocabulário, 
Mas por excesso de realidade. 
 
Se tento medir tua beleza, 
O verso encolhe, 
A sintaxe cede, 
E a tinta fica pálida 
Como quem olha o sol de frente. 
 
Há grandezas que se recusam à miniatura, 
E tu és uma delas: 
A escala natural do desejo, 
O traço mais alto do corpo, 
A geometria que insulta os cartógrafos. 
 
O poema é uma maquete, 
Enquanto tu és o edifício inteiro: 
Andares de luz, 
Escadas de perfume, 
Varandas onde repousam tempestades. 
 
Quando ouso te escrever, 
O papel se sente inferior. 
Ele sabe que nasceu para caber mundos, 
Não para tentar medir o teu. 
 
Por isso te digo sem pudor: 
Não cabe beleza tua em nenhuma moldura, 
Nem em métrica, nem em carne, 
Nem em fotografia. 
Teu tamanho é argumento contra a poesia. 
E ainda assim, absurdo maior, 
Sou poeta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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