Já é difícil demais
Carregar este sujeito que acorda comigo todas as manhãs,
Que abre um caderno imaginário para os fracassos
E observa o teto como quem encara um tribunal.
As pessoas adoram explicações.
Querem encaixar você numa gaveta,
Colocar uma etiqueta na sua testa,
E dormir tranquilas acreditando
Que o mistério foi domesticado.
Mas há dias em que nem reconheço
A voz que sai da minha boca.
Ela fala de coisas que não planejei,
Ri em momentos inadequados,
E permanece muda quando deveria gritar.
Aprendi a gostar dessa confusão.
Ela é mais honesta do que muitas certezas.
Os homens que sabem exatamente quem são
Costumam me assustar mais
Do que aqueles que vagam perdidos.
Então me deixem aqui,
Sentado ao lado do meu próprio incompreensível.
Não preciso de tradutores,
Nem de juízes.
O silêncio já me faz companhia suficiente.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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