Já me desfiz de roupas, amores e ilusões.
O tempo levou muita coisa sem pedir licença,
Mas os livros ficaram por aqui,
Teimosos como velhos bêbados no balcão.
Eles não me prometeram felicidade.
Isso é coisa de vendedor e candidato.
Os livros me deram algo mais honesto.
Algumas verdades desconfortáveis
E a companhia necessária para suportá-las.
Há noites em que não acredito em quase nada.
Nem nos jornais, nem nos discursos, nem nos heróis.
Então puxo um livro da estante,
E encontro alguém morto há cem anos
Pensando as mesmas porcarias que eu.
Minha biblioteca não é elegante.
Há volumes tortos, manchas e poeira.
Alguns carregam marcas de café e insônia,
Como cicatrizes que ninguém tentou esconder,
E talvez por isso eu goste tanto deles.
Quando eu partir, os livros ficarão.
É assim que deve ser.
Eles passarão para outras mãos, outros olhos,
Enquanto eu desapareço no grande silêncio.
E isso, curiosamente, me parece justo.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

lindo amei!!! bravo professor bravo!!!!
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