terça-feira, 2 de junho de 2026

Volto ao pó sem revolta

Moribundo e estupefato, caminho devagar, 
Como quem regressa de uma longa travessia. 
Fui arauto do novo mundo, 
Mensageiro de auroras ainda sem nome, 
E carreguei fogos que não me pertenciam. 

Anunciei horizontes aos cegos da esperança, 
Ergui palavras contra o peso dos séculos, 
E por algum tempo acreditei 
Que os sonhos pudessem permanecer intactos 
Diante da ferrugem do tempo. 

Mas tudo o que nasce inclina-se ao ocaso. 
As cidades mudam de rosto, 
Os nomes desaparecem das pedras, 
E as vozes mais altas tornam-se sussurros 
Perdidos na vastidão dos ventos. 

Agora confluo para a inculta catacumba, 
Sem coroas, sem testemunhas, sem estandartes. 
A terra recebe meus ossos 
Com a mesma indiferença antiga 
Com que recebe a chuva e as folhas mortas. 

E volto ao pó sem revolta alguma. 
Aquilo que fui dissolve-se na origem, 
Como um rio que encontra o mar. 
Talvez a eternidade seja apenas isto, 
Aprender a desaparecer serenamente. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário