Como quem regressa de uma longa travessia.
Fui arauto do novo mundo,
Mensageiro de auroras ainda sem nome,
E carreguei fogos que não me pertenciam.
Anunciei horizontes aos cegos da esperança,
Ergui palavras contra o peso dos séculos,
E por algum tempo acreditei
Que os sonhos pudessem permanecer intactos
Diante da ferrugem do tempo.
Mas tudo o que nasce inclina-se ao ocaso.
As cidades mudam de rosto,
Os nomes desaparecem das pedras,
E as vozes mais altas tornam-se sussurros
Perdidos na vastidão dos ventos.
Agora confluo para a inculta catacumba,
Sem coroas, sem testemunhas, sem estandartes.
A terra recebe meus ossos
Com a mesma indiferença antiga
Com que recebe a chuva e as folhas mortas.
E volto ao pó sem revolta alguma.
Aquilo que fui dissolve-se na origem,
Como um rio que encontra o mar.
Talvez a eternidade seja apenas isto,
Aprender a desaparecer serenamente.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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