quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O eco do que vivemos

 Tem instantes contigo que não se deixam nomear, 
Como se o tempo se recusasse a seguir adiante, 
E o mundo, por um segundo, desaprendesse a existir. 
Tudo se torna suspenso, leve, quase sagrado, 
E eu, diante disso, desaprendo as palavras. 
O que sinto não cabe em frases nem promessas, 
É maior do que qualquer tentativa de dizer. 
 
Procuro nos dicionários algum eco do que vivemos, 
Mas encontro apenas sombras do que é verdadeiro. 
As palavras são rasas diante do nosso abismo doce, 
E cada definição parece um erro necessário. 
Como traduzir o infinito em letras alinhadas? 
Como prender o indizível em linhas obedientes? 
Não há verbo que suporte o peso do que sinto. 
 
Escolho o silêncio como linguagem mais pura, 
Não por falta, mas por excesso de verdade. 
Prefiro calar a mentir em versos frágeis, 
Prefiro sentir a reduzir ao dizível. 
Se me perguntarem, nada saberei explicar, 
Mas no olhar haverá tudo o que importa, 
Porque o essencial não se escreve, apenas se vive. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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