Como se o tempo se recusasse a seguir adiante,
E o mundo, por um segundo, desaprendesse a existir.
Tudo se torna suspenso, leve, quase sagrado,
E eu, diante disso, desaprendo as palavras.
O que sinto não cabe em frases nem promessas,
É maior do que qualquer tentativa de dizer.
Procuro nos dicionários algum eco do que vivemos,
Mas encontro apenas sombras do que é verdadeiro.
As palavras são rasas diante do nosso abismo doce,
E cada definição parece um erro necessário.
Como traduzir o infinito em letras alinhadas?
Como prender o indizível em linhas obedientes?
Não há verbo que suporte o peso do que sinto.
Escolho o silêncio como linguagem mais pura,
Não por falta, mas por excesso de verdade.
Prefiro calar a mentir em versos frágeis,
Prefiro sentir a reduzir ao dizível.
Se me perguntarem, nada saberei explicar,
Mas no olhar haverá tudo o que importa,
Porque o essencial não se escreve, apenas se vive.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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