quinta-feira, 5 de março de 2026

O que escrevo aqui

 
Hoje, outra vez, não disse. 
O silêncio parece ter se tornado minha língua materna. 
E, de algum modo, falar seria uma traição 
A tudo o que sinto quando não falo. 
 
Olhei para você e foi como olhar para um eclipse: 
Belo demais para encarar por muito tempo, 
Perigoso demais para não olhar. 
Guardei os olhos para dentro. 
E deixei que o momento passasse, 
Como sempre. 
 
Às vezes acho que o sentimento é uma ferida aberta 
Que eu escondo sob a pele. 
Não sangra para fora, 
Mas arde quando respiro. 
Quando você fala, a dor muda de lugar, 
Se espalha pelo corpo 
Até se tornar impossível saber onde começou. 
 
Meu medo é que, se eu abrir a boca, 
Não saia voz, 
Mas uma enxurrada. 
E essa correnteza arraste tudo, 
Até o pouco de paz que existe entre nós. 
 
Então escrevo aqui. 
Onde posso dizer sem ser ouvido. 
Onde posso confessar que cada gesto seu 
Me atravessa como um corte fino, 
Profundo o bastante para que eu saiba 
Que nunca vou me curar. 
E talvez eu nem queira. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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