Hoje, outra vez, não disse.
O silêncio parece ter se tornado minha língua materna.
E, de algum modo, falar seria uma traição
A tudo o que sinto quando não falo.
Olhei para você e foi como olhar para um eclipse:
Belo demais para encarar por muito tempo,
Perigoso demais para não olhar.
Guardei os olhos para dentro.
E deixei que o momento passasse,
Como sempre.
Às vezes acho que o sentimento é uma ferida aberta
Que eu escondo sob a pele.
Não sangra para fora,
Mas arde quando respiro.
Quando você fala, a dor muda de lugar,
Se espalha pelo corpo
Até se tornar impossível saber onde começou.
Meu medo é que, se eu abrir a boca,
Não saia voz,
Mas uma enxurrada.
E essa correnteza arraste tudo,
Até o pouco de paz que existe entre nós.
Então escrevo aqui.
Onde posso dizer sem ser ouvido.
Onde posso confessar que cada gesto seu
Me atravessa como um corte fino,
Profundo o bastante para que eu saiba
Que nunca vou me curar.
E talvez eu nem queira.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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