sábado, 7 de março de 2026

Colunas de fumaça

 As bombas sempre falam primeiro. 
Elas não pedem licença à história, 
Nem consultam a consciência. 
Erguem-se como nuvens negras 
Que fingem ser tempestades, 
Mas não trazem chuva, apenas cinza. 
 
Do chão rasgado da terra 
Sobem colunas de fumaça 
Que tentam imitar o céu. 
São nuvens poluídas de medo, 
De ódio antigo, 
De decisões tomadas em salas silenciosas 
Onde ninguém ouve o choro das cidades. 
 
Enquanto isso, 
Em algum lugar entre os escombros do mundo, 
Palavras frágeis continuam tentando nascer. 
Palavras melancólicas, 
Escritas com a tinta escura da esperança ferida. 
Elas batem, uma a uma, 
Contra os escudos invisíveis da ignorância humana. 
 
Escudos que não são de aço, 
Nem de pedra, mas de orgulho, 
De propaganda, 
De certezas 
Que nunca aprenderam a duvidar de si mesmas. 
 
As palavras insistem. 
São pequenas, 
Quase ridículas diante do estrondo das bombas. 
Mas ainda assim se levantam, 
Como ervas teimosas entre as ruínas. 
Porque talvez, apenas talvez, 
Uma única frase compreendida 
Seja mais poderosa 
Do que mil explosões celebradas. 
 
Quando as nuvens da guerra 
Finalmente se dissiparem, 
Não será a fumaça 
Que permanecerá na memória do mundo. 
Serão as palavras 
Que conseguiram atravessar 
A muralha silenciosa da ignorância 
E lembrar aos homens 
Que eles nasceram para construir céu, 
Não para fabricarem 
Novas nuvens de destruição. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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