Às vezes sinto que o coração enferruja.
Não de ódio, mas de silêncio,
De pressa, de dias repetidos.
É como se o tempo, ao passar,
Deixasse uma poeira fina sobre a alma.
Então percebo
Que preciso ir para perto da natureza.
Preciso do rumor do vento nas árvores,
Do barulho discreto das folhas
Que se despedem dos galhos,
Do sol que não pede licença para tocar o rosto.
A natureza não pergunta quem eu fui ontem
Nem o que esperam de mim amanhã.
Ela apenas me recebe.
Ali, entre a terra e o céu,
Algo começa a se soltar dentro de mim.
O coração, que antes rangia como porta antiga,
Vai sendo lavado
Pela simplicidade das coisas vivas:
A água que corre sem destino,
O pássaro que canta sem plateia,
A árvore que cresce sem ansiedade.
Percebo então
Que a ferrugem não era do coração,
Era do mundo que se acumulava sobre ele.
Cada vez que caminho entre árvores,
Cada vez que escuto o silêncio de um rio,
Cada vez que sinto o cheiro da terra molhada,
É como se Deus, pacientemente,
Passasse sobre minha alma
Um pano de eternidade.
E pouco a pouco,
O coração volta a brilhar.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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