Não estranha
Como as estrelas que surgem cedo no céu,
Mas estranha
Como prédios vazios iluminados de madrugada.
Há algo quebrado em seus corações.
Não uma tristeza simples,
Mas destroços.
Como se cada peito
Guardasse os restos de uma guerra
Que ninguém lembra quando começou.
Cresceram entre telas que piscam
E silêncios que não abraçam.
Entre promessas que chegaram quebradas
E sonhos embalados em plástico.
Às vezes penso que vivem todos
Numa espécie de clínica maligna
No topo de um edifício muito alto,
Onde as janelas não se abrem
E o vento não entra para bagunçar os pensamentos.
Ali tratam a alma como quem trata um sintoma.
Silenciam perguntas.
Anestesiam o espanto.
Então descem para as salas de aula
Com olhos cansados antes mesmo da vida começar.
Alguns não sabem o que fazer com a própria dor
E acabam perfurando os assentos escolares
Como se quisessem atravessar a madeira
E alcançar um chão mais verdadeiro.
Talvez não seja rebeldia.
Talvez seja apenas um pedido de socorro
Escrito com objetos pontiagudos.
Porque quem tem destroços no coração
Não sabe sempre construir pontes.
Às vezes só sabe cavar.
Eu ainda acredito
Que em algum lugar dentro desses escombros
Existe uma pequena brasa.
E basta um gesto humano,
Um olhar que não julgue,
Uma palavra que não venha armada,
Para que esses jovens estranhos
Descubram, enfim,
Que seus corações não foram feitos
Para carregar ruínas,
Mas para aprender, lentamente,
A reconstruir o mundo onde vivem.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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