domingo, 8 de março de 2026

Estamos sendo vigiados

 Tem um olho enorme pairando sobre a cidade. 
Não é de carne nem de divindade, 
É feito de telas, 
De slogans, 
De dados coletados em silêncio. 
Ele não pisca. 
Não dorme. 
E não precisa gritar ordens. 
Basta sugerir. 
 
Nas vitrines iluminadas, 
Nas propagandas 
Que prometem felicidade em parcelas, 
Nas frases curtas que cabem em quinze segundos 
E convencem uma multidão 
De que escolheram livremente. 
 
Mas quase nada é escolha. 
Alguém escreveu o roteiro antes. 
Alguém definiu o desejo 
Antes que ele nascesse em nós. 
 
As ruas estão cheias de pessoas caminhando 
Com as próprias algemas nos bolsos, 
Chamando-as de conforto, 
Chamando-as de progresso. 
 
O olho observa. 
Ele aprende nossos medos, 
Arquiva nossos gostos, 
Mede nossas hesitações. 
E então devolve ao mundo 
Uma realidade cuidadosamente editada. 
Uma verdade filtrada. 
Uma opinião pronta. 
 
A vigilância moderna não precisa de soldados. 
Ela prefere algoritmos. 
Não precisa de censura explícita, 
Basta afogar a verdade em um mar de distrações. 
 
Enquanto isso, 
O grande olho cresce. 
Alimentado por cliques, 
Por selfies, 
Por confissões voluntárias 
Que chamamos de rede social. 
 
O mais inquietante 
Não é o fato de estarmos sendo observados. 
Mas o fato de que, aos poucos, 
Aprendemos a nos comportar 
Como se o olho estivesse sempre olhando. 
 
E assim a prisão se completa. 
Sem muros. 
Sem grades. 
Apenas com um olho gigantesco no céu digital 
E milhões de pessoas 
Que já esqueceram 
Como é viver fora do seu campo de visão. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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