quinta-feira, 12 de março de 2026

Hierarquia interior

 No começo, 
Tudo fala ao mesmo tempo. 
As vozes do mundo, 
As expectativas dos outros, 
Os medos que herdamos, 
Os desejos que nos atravessam 
Como ventos sem direção. 
Tudo exige urgência. 
Tudo parece importante. 
E assim o espírito se cansa. 
 
Mas um dia, 
Quase sempre depois de muitas tempestades, 
Aprendemos a organizar o silêncio. 
Descobrimos que nem todo ruído 
Merece morada em nós. 
Algumas palavras 
Devem ficar do lado de fora da porta. 
Algumas memórias 
Precisam apenas passar, 
Como nuvens que não pedem abrigo. 
 
Então nasce uma ordem invisível. 
O essencial sobe 
Como quem encontra 
O lugar mais alto da casa. 
O que é pequeno 
Aprende a ficar pequeno. 
O que é barulho Já não governa o coração. 
E ali, nesse território recém-arrumado, 
Algo inesperado floresce: 
A paz. 
 
Não a paz frágil 
Que depende de dias sem conflito, 
Nem a paz que pede ao mundo 
Que se torne gentil. 
Mas a paz firme 
De quem governa a própria alma. 
 
Porque quem aprende 
Essa hierarquia secreta da vida 
Descobre, enfim, 
Que a paz nunca esteve fora. 
Ela sempre esperou 
Na disciplina silenciosa de dentro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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