quarta-feira, 11 de março de 2026

Se um dia eu falar

Dizem que há nomes que não podem ser pronunciados 
Porque carregam dentro deles 
A força para despertar tempestades. 
O seu é um desses. 
Não porque seja proibido, 
Mas porque, se eu o disser como sinto, 
O mundo pode se partir em dois. 
 
Há noites em que acordo 
Com a certeza de que esse sentimento 
Não nasceu agora. 
Ele vem de antes. 
De outra vida, 
De outra história que não terminou. 
E aqui estamos, repetindo a cena, 
Com as mesmas mãos hesitantes, 
O mesmo silêncio que pesa como pedra. 
 
Sinto como se eu tivesse feito um pacto sem saber: 
Guardar seu nome preso dentro de mim 
Até que o tempo me esqueça. 
E nesse pacto, falar seria quebrar o selo 
Que mantém as sombras quietas. 
 
Quando você está perto, 
O ar muda de cor. 
É como andar por um campo onde, 
Sob a terra, dorme um animal imenso. 
Um passo errado e ele acorda. 
E eu… 
Eu sou o passo errado. 
 
Se um dia eu falar, 
Não será uma declaração. 
Será um feitiço antigo, 
A chave para uma porta que ninguém deveria abrir. 
E talvez, ao abrir, 
Não sobre nada de nós dois para contar a história. 
 
Até lá, sigo amaldiçoado: 
Te olhando como quem lê uma profecia, 
Te guardando como quem esconde uma arma carregada, 
Te amando como quem segura o próprio fim 
Na palma da mão. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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