sexta-feira, 3 de abril de 2026

Os que acordam o vento

 Tem aqueles que são como casa de portas fechadas, 
Com janelas que nunca se abrem, 
E cortinas que escondem até o próprio sol. 
Ali dentro, a poeira é cômoda, 
O ar é velho, 
Mas ninguém questiona. 
 
São muitos, 
São vozes repetidas, 
São rostos que assentem sem olhar. 
 
Mas tem também os outros... 
Os que acordam o vento. 
Os que entram rasgando o ar imóvel 
Com perguntas que doem, 
Com silêncios que acusam, 
Com gestos que te empurram para fora de ti. 
 
Andar com eles 
É como caminhar em bordas de penhascos invisíveis, 
É tropeçar nos próprios passos, 
É descobrir que chão firme pode ser ilusão. 
Eles não te oferecem abrigo, 
Mas te dão asas estranhas, 
Feitas de dúvida e desejo de ir além. 
 
E o preço? 
O preço é a perda das antigas certezas. 
É o exílio dos cômodos afetos. 
É a dor de ser estrangeiro até dentro da própria pele. 
 
Mas o prêmio... 
Ah, o prêmio... 
É a lucidez que nasce como claridade depois da tempestade. 
É o olhar que atravessa véus, 
É o pensamento que se recusa a ajoelhar. 
 
Nunca, jamais, 
Faças parte da procissão dos adormecidos. 
Não te tornes cúmplice do eco que nada diz. 
 
Escolhe sempre 
Os que te obrigam a crescer, 
Os que desarrumam teus móveis interiores, 
Os que te ensinam a soprar as cinzas 
Até que reste apenas a chama. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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