Há uma vida que não vivi, mas me habita,
Como um quarto fechado dentro de mim,
Onde os móveis guardam poeira de sonhos,
E as janelas jamais foram abertas ao sol,
Ainda que eu escute o vento do lado de fora.
Carrego destinos que não escolhi nos ombros,
Como roupas herdadas de um tempo alheio,
Ajustadas à força sobre minha pele inquieta,
Costuradas com fios de silêncio e renúncia,
Que apertam mais quando tento ser livre.
A angústia não chega, ela sempre esteve,
Sentada ao meu lado nas horas mais comuns,
Bebendo do mesmo cansaço que me sustenta,
Sussurrando perguntas sem resposta possível,
Fazendo da dúvida um espelho interminável.
Penso nas vidas que ficaram pelo caminho,
Nas versões de mim que nunca respirei,
Nos gestos que morreram antes de nascer,
E sinto um luto estranho, sem nome ou corpo,
Por tudo aquilo que fui apenas em pensamento.
Eu sigo porque viver é também aceitar,
Que nem todo sonho encontra o seu chão,
E que há uma beleza áspera na permanência,
Em resistir mesmo sem entender o rumo,
E existir, ainda assim, com tudo o que falta.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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